Fogo e morte…

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Esse episódio de Janaúba, onde crianças morreram cruelmente queimadas, trouxe à tona dois acidentes em família que mudou para sempre a vida da minhas avós.

Iolanda, irmã de minha mãe, com seus grandes olhos castanhos e seus cachinhos que insistiam em cair sobre a testa, era uma garotinha muito esperta e, no auge de seus 4 aninhos, saracoteava pela casa atrás de suas aventuras, onde sempre estavam presentes princesas, dragões e claro um lindo príncipe num cavalo branco, difícil mesmo era mantê-la  quieta sem estar mexendo em alguma coisa, pois sua curiosidade infantil não lhe permitia.

Mas toda essa vivacidade estava ameaçada, numa noite de frio, onde minha vó encontrava-se acamada, o jantar era feito pela minha tia mais velha, Luiza, que apesar de sua pouca idade, tinha que assumir nesses casos o papel de cuidadora da mãe e dos irmãos menores.

Naquela época São Paulo era uma cidade em que os invernos eram realmente rigorosos e as sopas bem quentes eram a opção para aquecer as pessoas. No fogão um grande caldeirão fervia e, na mesa já com fome, estava Iolanda, com seu pulôver de lã, que seria a grande causa do seu fim.

Minha tia em sua inexperiência e, tentando atender logo a pequena que insistentemente pedia comida, pegou o caldeirão sem a ajuda de um pano e, não aguentando a quentura, soltou-o em cima da mesa, fazendo-o virar totalmente sobre a pequena.

Como eu disse anteriormente o pulôver de lã foi um grande agravante nessa história, porque colou ao corpinho de Iolanda, piorando ainda mais seu quadro.

Na ambulância que a levava para a emergência, ela ainda brigava com a irmã por ter derrubado a sopa quente nela, mas não conseguiu sobreviver por muito tempo, vítima de uma gangrena, sua vida foi interrompida ali mesmo, sua alegria terminava aos meros 4 anos de idade.

Em outra casa nessa mesma época, porém na cidade de Santos, Lourival, irmão gêmeo de meu pai, então com 7 anos, teria um fim muito parecido.

Meus avós moravam numa grande casa na Avenida Conselheiro Nébias, e nos porões de algumas delas tinham incineradores, para que o lixo fosse queimado ali mesmo.

Mais uma vez a curiosidade infantil se fez presente e sem que ninguém visse o garoto desceu e foi  tentar descobrir como seria se ele resolvesse acender um fósforo ao lado do querosene que alimentava o incinerador. Pronto a tragédia estava formada, imediatamente uma grande explosão aconteceu e acompanhada a ela, o fogo começou a consumir o sobrado, iniciando-se pelo porão aonde se encontrava Lourival, que não conseguiu sair a tempo, morrendo carbonizado no local.

Grande parte da casa foi queimada, minha avó entrou em desespero e nunca mais se recuperou do trauma, vindo a falecer pouco tempo depois em razão desse choque.

Essas histórias me acompanharam a vida toda, e o fato de ter dois tios, queimados, tanto por parte de mãe, quanto de pai sempre me intrigaram, achava que algum propósito deveria haver na coincidência desses dois casos, mas tudo não passava de uma terrível coincidência mesmo.

Hoje tudo isso voltou a minha mente, e fico imaginando a dor que essas crianças sofreram e o desespero de suas famílias, que assim como as minhas nunca mais se recuperaram do trauma.

Posted by Lily Concilo